Gabriela Alves diz que teve crise de choro e ficou reclusa após "Amor e Revolução"

12-04-2011 00:31

por  Gabriel Perline, publicado originalmente no site TERRA

 

(Foto: Francisco Cepeda / AgNews)

Quase nove anos afastada das novelas, Gabriela Alves retorna à dramaturgia na pele da sofrida Odete Fiel, em Amor e Revolução, que estreia nesta terça-feira (5) no SBT. A personagem é uma líder revolucionária que acaba seqüestrada pelos poderes "obscuros" que agiam na época da ditadura militar. Torturada de todas as formas - como se fosse uma forma de pagamento por conta das vilanias cometida na época em que interpretava a vilã Zulema, emMarisol, sua última novela - ela tem uma breve e chocante participação na trama de Tiago Santiago.

 

Em entrevista exclusiva ao Terra, Gabriela falou das dificuldades em se distanciar do universo da personagem e confessou que no último dia de gravações acabou se debulhando em lágrimas por conta do sofrimento de Odete.

 

 

Confira abaixo a entrevista que Gabriela Alves concedeu ao Terra:

 

Muito difícil ser Odete Fiel? 


É uma personagem bastante desafiante e que requer uma carga emocional forte.

 

Em sua curta trajetória na novela, você apanhará bastante... 


Eu apanho de todo quanto é jeito, você não tem ideia (risos). A Odete sofre todas as torturas possíveis. Eu me sinto muito honrada de estar fazendo este trabalho. Não é apenas uma obra de entretenimento, é uma obra de cunho social também, porque visa contar um pouquinho da história que o próprio País não conhece e inspirar uma nova postura. É muito inspirador você ver jovens lutando pela justiça social, pela democracia, pela liberdade de expressão e acho que a gente perdeu muito este compromisso com o País. Eu vejo que a geração atual é mais informatizada, mas menos formada, acho que tem muita informação, mas tem pouca formação e pouco compromisso com o social.

 

Acredito que não tenha sido fácil deixar de ser Odete ao final das gravações. Conseguia chegar em casa e dormir tranquilamente ou sua cabeça ainda ficava ligada no trabalho? 


A gente procura enquanto profissional ter um distanciamento e ser técnico, mas é lógico que o humano, neste caso em especial, pesa muito. A gente teve a oportunidade de ouvir depoimentos de militantes que foram realmente torturados e isso direcionou nosso trabalho e reforçou o compromisso social desta obra, além de tocar muito no nosso humano. Então eu vi a Odete ali falando o que ela passou. Ouvi mulheres relatando casos de abusos de várias naturezas, que tiveram maridos torturados. Eu busquei manter um distanciamento do trabalho, mas no último dia de gravações, quando esta personagem já havia passado por todos os tipos de torturas, já teve o marido morto, foi separada das filhas, abusada, tudo, ela tenta fugir. Ela já estava em frangalhos. E aí a gente teve um desafio de gravar uma externa, onde passavam caminhões, motos, carros e tinham prazos a cumprir, porque tem estas questões técnicas, e já estava acabando a luz e havia uma tensão no set. Isso acabou me balançando enquanto profissional também, porque a gente tinha que estar ali muito ligado, mas ao mesmo tempo eu tinha que estar trazendo esta carga emocional. Confesso que levei dois dias para me recuperar. Cheguei em casa acabada e precisei ficar reclusa.

 

Como que isso aconteceu?

 
Eu tive uma crise de choro, tinha uma cena para gravar e não aguentei. Era muita exposição, tinha muita gente assistindo e eu tendo que tocar ali naquela fragilidade. A gente empresta, de certa forma, as próprias emoções para o personagem. Então eu tinha que estar ali dilacerada, completamente frágil, vulnerável. Então eu acabei, enquanto atriz, também ficando vulnerável por toda aquela circunstância, aquela pressa, porque tinha que gravar. Confesso que não foi fácil.

 

Você precisou recorrer a algum tipo de ajuda psicológica? 


Graças à Deus eu tenho uma cabeça boa (risos). Eu acho que a importância desta obra é tão grande que o que eu passei não foi um décimo do que as pessoas passaram, em relação ao desconforto físico ali no pau de arara ou exposição emocional. É muito pouco perto do que as pessoas passaram de verdade que acaba não se tornando nada. Eu nunca me senti tão honrada em ser atriz e acho que isso se sobrepõe. A causa em si supera qualquer desconforto.

 

Por que ficou tanto tempo longe das novelas? 


Eu fiz algumas participações, muito poucas na verdade, de oito anos para cá. Minha ultima novela foi Marisol, que eu fazia a vilã, Zulema. De lá para cá eu resolvi dar um tempo, estudar, me reciclar. Eu acho que o artista é um espelho da vida, então ele precisa viver, senão acaba gastando o acervo que ele tem. Me aprofundei na área terapêutica.

 

Seria seu retorno triunfal à TV? 


Uau (risos)! Eu estou a serviço do social, acho que todo artista é meio missionário e eu estou num momento de resgatar o sagrado da arte, que também consiste em olhar para o social e entender que a arte pode até não mudar as pessoas, mas que ela insira uma mudança. E isso é muito importante de se resgatar, ainda mais num momento tão crítico e especial. Estamos vivendo uma grande oportunidade de transição, estamos sacudidos pela natureza, sendo obrigados a olhar de uma forma mais responsável para ela e olhar para o todo. Parece que é um chamado para olhar para o coletivo. Hoje em dia eu quero fazer somente coisas que me falem à alma. Tiveram vezes que, por ser meu ofício, abri algumas exceções e precisei de um respaldo financeiro, mas hoje em dia eu quero recorrer à arte apenas com o coração e com a alma

(Foto: Lourival Ribeiro/SBT)