Autor investe em personagens gays em "Amor e Revolução", nova novela do SBT

24-03-2011 00:24

por Thiago Stivaletti, publicado originalmente no UOL Televisão

Fotos: Roberto Selton (UOL)

 

(Luciana Vendramini e Giselle Tigre)

Luciana Vendramini está exultante. Em “Amor e Revolução”, ela viverá Marcela, uma advogada que defende os presos e torturados durante a ditadura militar nos anos 60. Marcela viverá uma paixão não correspondida por Marina (Giselle Tigre), sua amiga de infância, dona de um jornal de esquerda. “Estava louca pra fazer um personagem assim. Até hoje só fiz personagem de donzela, né? A Marcela vai ser muito feminina, nada caricata ou estereotipada”, falou após o evento de lançamento da novela.

Maior estrela e maior salário do elenco, Lúcia Veríssimo volta às novelas depois de seis anos –a última foi “América”, na Globo. Estava com a cabeça apenas em teatro, escrevendo e atuando nos palcos, quando recebeu o convite para fazer Jandira, a maior guerrilheira da trama. Aceitou porque foi “contestadora a vida inteira”.

“Meu pai foi perseguido pelos militares, meus tios foram presos. Naquela época, os colégios não aceitavam artistas, gente de esquerda e filhos de pais separados. Eu era as três coisas. Na minha classe havia eu, Lobão, Pedro Bial, Guilherme Karan e Christiane Torloni. Preciso dizer mais?”, brincou. E defendeu o valor histórico da novela. “O papel da TV é informar, e nós nos afastamos disso há muitos anos.”

Longe das novelas da Globo há dez anos, Isadora Ribeiro fará uma participação especial de cinco capítulos, como uma professora sem engajamento político que investiga o desaparecimento de dois alunos e acaba sendo torturada. “Lembro que meus pais em Curitiba diziam na época pra gente não falar muito de política por aí”, lembrou.

Cláudio Cavalcanti exibia as mãos descamadas por causa da maquiagem que imita o ácido que os militares usam para torturar seu personagem, Geraldo, líder das ligas camponesas inspirados em Gregório Bezerra, preso durante 22 anos por motivos políticos. “Meus outros heróis eram mais pacatos. Esse é bem mais assertivo”, comparou, lembrando do padre comunista Albano de “Roque Santeiro”.

Fábio Villa Verde, que faz o tenente Telmo, agente da repressão, disse que voltou a ser mais reconhecido na rua com a reprise da novela “Vale Tudo”, na qual faz Tiago, o filho de Heleninha Roitman (Renata Sorrah). “A novela tem 23 anos, nem eu me lembrava de algumas histórias. Mas como durmo tarde, tenho tentado rever”.

(Gabriela Alves e Carlos Thiré)

Marcela, a advogada lésbica vivida por Luciana Vendramini, não será a única personagem gay de “Amor e Revolução”. Chico (Carlos Thiré) é um diretor de teatro bissexual que ao longo da novela se apaixona pelo hippie João (Paulo Leal). “O Chico não assume que também gosta de rapazes, mas quando bebe começa a querer beijar os colegas”, diz o autor.

No núcleo dos estudantes que se envolvem na guerrilha, os personagens lembram a música “Flor da Idade”, sucesso de Chico Buarque na época: Marta (Dani Moreno), uma assaltante a bancos, ama Bete (Natália Vidal), que ama Luís (Élcio Monteze), que ama Marta, fechando a ciranda.

Mas o personagem mais controverso será Fritz (Ernando Tiago), um “carrasco nazista” que só consegue sentir desejo por mulheres em situações violentas. Santiago promete uma grande virada quando o torturador se apaixonar por Chico. O diretor de teatro vai para a cadeia e tornar-se alvo de suas torturas.

“Os gays fazem parte do nosso convívio, toda família tem. E o público GLS gosta de se ver retratado nas tramas”, diz Santiago. Mas as histórias não seriam um pouco pesadas para o público do SBT, acostumado a histórias mais adocicadas? “Até agora, tive ampla liberdade para escrever. Nossa classificação indicativa é de 14 anos, e não fizemos nenhuma cena que possa ser considerada ofensiva. Mas é a resposta da audiência que vai condicionar o desfecho de cada personagem”, explicou o autor.