"Amor e Revolução": O resgate de parte da dura história do país

08-05-2011 21:55

por Carolina Campos, publicado originalmente no site VERMELHO.ORG

Foto: Lourival Ribeiro (SBT)

 

Com pouco mais de um mês da estreia, “Amor e Revolução” exibida de segunda à sexta-feira no SBT, já tem muito mais que apenas poucas dezenas de capítulos para mostrar. Com grande repercussão nacional, quer seja pela relevância do tema, quer seja pela movimentação que suscitou por parte dos militares, a novela está dando muito o que falar.

 

Mário Albuquerque, conselheiro da Comissão Federal de Anistia, é um dos expectadores da novela. “Não vejo diariamente como gostaria, mas tenho assistido sim à novela, seja pela relevância do tema, seja pelo inusitado do meio (novela) utilizado na sua abordagem”. O Presidente da Comissão Especial de Anistia Wanda Sidou no Ceará não se sente habilitado para opinar do ponto de vista da dramaturgia na novela, mas ressalta: “É importante acautelarmos em relação à imposição de um padrão único (da família do pensamento único, do gênero uniformidade) de telenovela que tentam nos impor”. 

Quanto ao conteúdo, embora seja obra de ficção, com toda a liberdade que lhe é inerente, Mário Albuquerque considera que o texto foi fruto de rigorosa pesquisa histórica, guardando coerência com os fatos acontecidos. “É sintomático e alvissareiro que o tema esteja sendo abordado pelo meio novela, reconhecidamente um gênero de amplo apelo popular e por um canal de televisão idem. Sinal dos tempos - esse senhor da razão. Sinal de que estamos maduros para, pela primeira vez, encarar de frente fatos traumáticos da nossa história, rompendo com a velha prática de jogá-los para debaixo do tapete”, considera. 

O conselheiro considera que reproduzir o tema, em rede nacional, com linguagem acessível a todos, é um fato positivo para a solidificação da democracia no Brasil. “Isso será bom para todos. Repito: para todos. E nos enche de orgulho pelo que fizemos na luta contra a Ditadura. Valeu a pena tantos sacrifícios. A profecia, que antes de ser bíblica é popular, finalmente vai se consumando: a ressurreição dos mortos - e dos desaparecidos. Eles estão mais vivos do que nunca e compõem a argamassa com que a nação está sendo erguida”.


Resgate histórico

 

Segundo o jornalista e sociólogo Luiz Carlos Antero, “Amor e Revolução” acontece num momento muito especial para o Brasil, um país historicamente atrasado quanto ao resgate da sua história. “A novela tem público assegurado, pois o transcurso de um quarto de século não cicatrizou na sociedade brasileira as terríveis sequelas da Ditadura Militar, que se estendeu por 21 anos (1964-1985)”, considera. 

Antero avalia outras “virtudes” da novela. “Amor e Revolução libera as pessoas da programação diversionista da Rede Globo e proporciona um inevitável e necessário encontro com um país violentado pela truculência — fato inusitado em nosso país — que muitos desconhecem”. O jornalista reforça que “cabe a toda gente reconhecer e mostrar a importância da arte e da cultura — presentes na dramaturgia — nesse especial contato do povo brasileiro com o seu passado, articulado à construção do seu presente e futuro”. 


Contribuição para a democracia

Carlos Augusto Diógenes (Patinhas), presidente estadual do PCdoB no Ceará, avalia de forma positiva a abordagem do assunto pelo SBT. “Além do resgate histórico, ‘Amor e Revolução’ tem sido uma contribuição para a democracia. Através de diálogos simples, a novela mostra o Golpe Militar, os interesses da elite contra o Governo de João Goulart e a interferência norte-americana no país”, enumera.

O dirigente ressalta também a fidelidade aos assuntos citados nesses primeiros capítulos da novela. “O atentado contra a sede da UNE, o fechamento do Congresso, o fim da legalidade, sequestro de crianças e torturas. Tudo isso retrata bem os duros anos sofridos durante a Ditadura Militar”. 

Patinhas destaca o tratamento dado aos comunistas pelos agentes da repressão. “Desde aquele tempo, comunista é exemplo de luta em defesa da liberdade, da soberania nacional e dos direitos do país. De certa forma, a novela também conta um pouco a história do PCdoB”, considera. Além, disso, reforça Carlos Augusto, outro ponto de destaque é o conflito dentro das próprias forças armadas. “É importante destacar, e a telenovela faz isso com clareza, que os militares não eram um bloco monolítico. Havia sim resistência dentro das forças armadas. Existiam militares que se colocaram contra o golpe e, principalmente, contra as torturas. E isso também deve ficar registrado na história do país”, reforça.


Depoimentos

O programa “Conexão Repórter”, exibido no SBT na véspera da estreia da novela e apresentado por Roberto Cabrini, falou sobre a Ditadura Militar. Ouvindo alguns dos protagonistas desse sombrio passado do país, o jornalista destacou que o Ceará foi um dos estados que mais tiveram histórias de torturas e prisões. José Auri Pinheiro foi um dos personagens do programa.

Preso político torturado durante o Regime Militar, José Auri comemora a veiculação de “Amor e Revolução” e destaca como ponto alto os depoimentos em que personagens que vivenciaram a Ditadura falam sobre suas experiências. “Essa novela passa a ter grande importância no sentido em que, em nenhum momento pós-ditadura, aconteceram tantas denúncias de torturas como o que vemos nos depoimentos veiculados ao final de cada capítulo”. Para o professor, essa iniciativa pode desencadear ações efetivas que poderão ir além da televisão. “Neste momento, esses depoimentos com graves denúncias poderão desencadear a efetivação da Comissão da Verdade”.

Carlos Augusto Diógenes também considera relevante a veiculação dos depoimentos. “A novela poderá contribuir para a aprovação da Comissão da Verdade. Esta é mais uma forma de tornar transparentes os acontecimentos registrados durante a Ditadura Militar”. 

 

Censura


Para o professor José Auri, a novela tem mexido com os antigos militares que sentem-se incomodados com o resgate histórico veiculado diariamente no SBT. “Eles inventaram até um abaixo assinado para tirar a novela do ar. Os militares avessos à democracia acham que ainda podem censurar. Acham que podem tudo”, critica. 

Luiz Carlos Antero também considera “enérgica” a presença da sociedade diante deste debate. “É preciso contribui fortemente para a resistência às pressões obscurantistas e conservadoras que pretendem sumir com a novela, tirando-a do ar, ou reduzir seus objetivos, restaurando a censura nas circunstâncias atuais. Inaceitável!”