"Amor e Revolução", uma novela para conscientizar o cidadão

30-04-2011 16:42

por Wagner Cordeiro (Professor de História em Fátima do Sul-MS)

Fotos: Lourival Ribeiro (SBT)

A nova novela do horário nobre do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), “Amor e Revolução”, está causando reações por parte da sociedade brasileira, entre elas os pesquisadores (historiadores, sociólogos, filósofos, cientistas políticos, jornalistas entre outros) e os militares das Forças Armadas nacional. Não é para menos, afinal, essa produção artística dirigida pelo autor Tiago Santiago, que também é cientista social, trás a tona, de forma nunca antes vista na televisão brasileira, a discussão sobre um dos períodos mais conturbados da história política do Brasil, os longos anos de ditadura militar experimentados entre 1964 e 1985.

De maneira resumida, relataremos as características desse processo histórico. O contexto inicial se dá a partir de agosto de 1961, quando do ato de renúncia do então presidente da República Jânio Quadros, após 8 meses a frente do poder Executivo federal. Com sua saída, a chefia da Nação foi transferida ao vice-presidente João Goulart, petebista histórico ligado ao grupo político do trabalhismo, no qual também se destacaram os ex-presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.

Devido a aproximação de seu governo com setores da esquerda internacional (principalmente com as repúblicas socialistas da União Soviética e da China), alguns líderes políticos conservadores, aliados a burguesia nacional, juntamente com chefes do alto comando da Marinha, Exército e Aeronáutica, começaram a temer a administração de Jango, devido às possíveis influências comunistas por aqui. Para isso, criaram um mecanismo com objetivo de limitar seu poder, o Parlamentarismo, que pela primeira vez foi adotado na República. Em 1963, num plebiscito, a população brasileira optou pelo fim do sistema parlamentarista, devolvendo ao presidente os poderes que lhe cabiam.

Afamado pelas orientações populistas, e com grande apoio dos movimentos sociais da época, Jango iniciou no Brasil um estilo reformista que pretendia realizar profundas transformações na estrutura nacional por meio das Reformas de Base, que incluíam, entre outras, a Reforma Agrária, Universitária e Urbana.

Em fins de março de 1964, o Governo Goulart sofria pressões, principalmente da classe média e dos empresários nacionais e estrangeiros e, por outro lado, a pressão externa do governo dos Estados Unidos, tendo em vista o contexto da Guerra Fria, que se preocupava com os avanços das ideias marxistas em solo brasileiro. No dia 31 daquele mês, os militares iniciaram o que para eles se convencionou a chamar de revolução democrática, mas que para outros, passou a ser tratado como um golpe de Estado antidemocrático. Iniciavam-se assim, os longos e repressivos anos de regime ditatorial. O presidente da República preferiu não resistir e se retirou para o Rio Grande do Sul, exilando-se, tempos depois, no Uruguai.

A respeito de João Goulart ter sido um comunista, como alegavam os militares e aqueles que por eles foram influenciados, essa tese é motivo de controvérsias, pois de acordo com diversos autores, entre eles o jornalista e escritor Flávio Tavares, pessoa que conviveu com o presidente, Jango era na verdade um reformista conservador, além de ser rico fazendeiro. O que se discute, mas que muitas vezes não é repassado, é que Jango preparava para o País um projeto de nação desenvolvida e justa, com bases capitalistas.

Deflagrado o golpe, as forças que assumiram o comando nacional iniciaram a perseguição aqueles que se opusessem ao regime de exceção. Entre líderes estudantis, militantes dos partidos socialistas, religiosos, entre outros, foram vários os cidadãos que ao não se calarem diante das injustiças sofridas pelo povo brasileiro, foram vítimas de crueis torturas ou tiveram suas vidas ceifadas por defender um modelo de sociedade igualitária e democrática. Mandatos parlamentares foram cassados e garantias constitucionais que legitimavam a cidadania da população foram banidas. A ditadura somente se encerrou em 1985, com a eleição indireta de Tancredo Neves (PMDB) para a Presidência da República, após um longo processo de embates pela redemocratização.

Ao representar o que foram os anos de chumbo, por meio de uma novela, produção televisiva tão popular entre os brasileiros, os atores de “Amor e Revolução” evidenciam de maneira explícita as marcas cruéis dessa época que não deve ser esquecida tão cedo. Num cenário político em que o governo federal, apoiado por entidades como a OAB e diversas ONGs ligadas aos direitos humanos, pretende rever leis e permitir a abertura de arquivos secretos da ditadura, transmitir uma produção dessa magnitude – apesar de tentativas de censura em tempos de liberdade, já manifestada por alguns ex-oficiais – significa dar uma contribuição imensa para a construção do processo histórico e democrático ao qual pertencemos. Aos cidadãos brasileiros que queiram conhecer melhor a história nacional, não deixem de assistir os próximos capítulos dessa novela e refletir sobre um modelo de governo que jamais deve se repetir no Brasil.